domingo, 3 de julho de 2011

DEPRESSÃO: NÃO VIDA!!!

Era uma manhã chuviscada de domingo e fria.  Minha mãe me mandou ir comprar pão para o café da manhã.

Eu acordei em uma cama diferente, na sala de uma casa estranha. Era o acordar num tempo e espaço que eu não identificava.

Fui, comprei o pão, o leite, e, ao voltar para casa, encontrei no caminho uma mulher que as crianças chamavam de “feiticeira”. Contei para minha mãe e ela, muito tranquila disse: só porque ela é diferente não significa nada; e não existem nem feiticeiros e nem feitiço.

Esse fato só é relevante por que eu sei, através dessas parcas lembranças o que as crianças diziam. Isso confirma que eu já morava nessa casa há mais dias, conhecia o caminho, me lembro da mulher e de certo movimento de crianças por essa casa nova.

O que foi que aconteceu? Como? Quando? Onde eu estava? Cadê meu pai? Ninguém fala mais nele. Eu não tenho coragem de perguntar, acho que não quero ter a confirmação.

O que tem tudo isso com depressão? Lá vai vou explicar!

Eu vinha lendo o livro de minha vida. Tinha a nossa casa na Rua Progresso, meu irmão, minha mãe, meu pai e todo o meu universo infantil. Meus cantinhos, meus brinquedos, a porta que eu abria para o meu pai todos os dias em clima de grande festa quando ele chegava do trabalho. O cheiro do fogão à lenha, o mico de verdade que ele me deu, minhas piorras, tinha piorra musical também. Panelinhas e fogãozinho, minhas bonecas, minha caixa de lápis de cor de dobrar muitas vezes. Tinha minha caixa grandona de massinha de modelar e, as balas Imperial que ele fazia grila. As frutas que ele preparava numa cestinha para eu levar para as minhas amiguinhas eram muito pesadas.

E aos domingos ele ficava lendo o jornal, me entregava o encarte infantil. Eu deitava no chão ao seu lado, abria a minha caixa de lápis e ficava ali, colorindo e resolvendo todos os jogos do encarte, vez por outra eu o chamava para ele ver minhas obras e ele, de forma um pouco displicente, olhava, elogiava e voltava para o jornal. Esse momento era dele e ele deixava isso claro, de forma gentil e delicada.

Jornal dobrado, brinquedos guardados, eu me enganchava em seu pescoço, segurava em seus cabelos e assim ficávamos até na hora do almoço. Depois ele ia dormir.

Meu pai sabia amar uma criança, sabia cuidar e dar atenção; e cuidar de seus interesses também. Nós nos amávamos muito, fui muito feliz. No jardim eu era uma criança segura, serena, extremamente pacífica.

Foi aí que arrancaram páginas do meu livro, poucas, mas que criaram uma lacuna impossível de ser resgatada. Eu não vi, não sei como aconteceu; eu só acordei numa convulsão epilética, naquela casa estranha que, pelos fatos, é possível entender que eu já morava ali há algum tempo, não sei. Só não tinha a menor lembrança, de como cheguei ali, nem bonecas, panelinhas, massinhas, nem meu pai.

Ao voltar das compras eu disse para a minha mãe que eu estava passando mal, com as vistas manchadas e o estômago ruim, ela me mandou deitar e rezar, foi dito, foi feito. Depois de um tempo, segundo ela, eu comecei a falar tudo embolado, incompreensível, e, para me repreender, ela se virou para mim e eu estava com o rosto todo torto.

Levaram-me para o pronto socorro, por lá fiquei um tempo e sai com a recomendação de não ser acordada em hipótese alguma, e quando eu acordasse tomasse um banho e uma sopinha bem levinha.

Foi uma só convulsão epilética, um fato isolado, paixão pela perda de meu pai. Meu mundo perdeu todo o perfume, toda a cor, toda a vida, meu porto seguro naufragou. Tornei-me um zumbi.

Essa tristeza profunda nunca foi trabalhada, nunca foi dita, apenas sentida em minha solidão. Que nem eu sabia que estava lá. Meu pai, meu amor, você deixou ela nos vencer, mas isso é problema seu.

Tornei-me uma jovem arredia, solitária, mal cuidada, mal amada. Profundamente triste, porém com um lindo sorriso; o quadro que foi se agravando bem lentamente e fez da minha vida um tormento e claro, de quem estava em volta também.

Os médicos que eu procurava, todos me davam remédios para depressão, sem orientação nenhuma. Eu devo ter tomado tudo o que já existiu, porque remédios e dietas todos os médicos acham que estão aptos a receitar, ONIPOTÊNCIA?  Concorrentes com o DIVINO?

Foram tantas as porcarias que tomei anfetaminas, misturada com antidepressivo, ansiolíticos, soníferos, e aquelas fórmulas criados por alguém que se considera DEUS. Eu fico pensando como sobrou alguma coisa no me cérebro.

Se não bastassem as anfetaminas, surgiu também a fluoxetina, o Lexotam, são receitados como água e, a cada dia mais um milagre farmacológico. Que qualquer um receita: clínico, ginecologista, cardiologista, ortopedista, urologista, neurologista, menos o psiquiatra. Eu sempre pergunto para as pessoas que me contam que estão tomando remédios: quem te receitou? Qualquer um, raramente um psiquiatra.

Graças a Deus eu encontrei um psiquiatra que quase me matou e com isso eu encontrei o Doutor Leonardo, com quem eu trato há seis anos, e, desde dezembro de 2010, venho ressurgindo dos mortos, nesse renascimento venho descobrindo o que é saúde mental. Meu nível de produção, de investimento no que me disponho a fazer e resistência para vencer obstáculos, persistência. E uma paixão enorme por mim e por meu trabalho.

Eu saí de um estado de não VIDA, em que viver estava cada vez mais difícil, tudo era um grande sacrifício para mim. Eu me entreguei a essa uma não vida. Porém, ao mesmo, tempo existe dentro e mim uma força imbatível. Em 1988 eu disse: vou sair dessa. Tem que existir uma solução e eu a encontrei. Esses vinte e três anos de busca tiveram momentos de queda, eu estava inventando uma saída, que não funciona 100% pois, dependo de alguns outros profissionais, é o que mais dificulta, mas não suportava mais o gosto amargo da depressão.

Toda esta exposição que eu estou fazendo de minha intimidade num meio tão perigoso é para chamar sua atenção para o fato de que a depressão é um estado emocional de extrema gravidade, não é para negligenciar, ignorar, nem achar que é frescura; já ouvi isso e muito mais. Ninguém, nem seus amigos, pais, ou vizinhos estão aptos para esse diagnostico que só poderá ser feito e tratado por um psiquiatra e mais ninguém. Quando você quebra uma perna o psiquiatra cuida de sua perna? Então é um ginecologista? É um cardiologista? Também não? Então LEMBRE-SE: CADA MACACO NO SEU GALHO. E mesmo assim muito cuidado, é a sua vida, sua saúde. Não é um diploma que faz um profissional, mas o seu compromisso com seu cliente e sua ética.

Sofrimento emocional tem sempre uma causa, não importa se você tenha consciência disso ou não, ele estará lá comendo sua “alma” te transportando para a não vida e, precisa ser tratado e muito bem tratado.

Elizabeth Chimicati  

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